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16/04/2009 - Portal Terra Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Madoff ou a teia de aranha de Deus

Por: Tomás Eloy Martínez


Em Nova York, o rabino David Gaffner diz: "O Talmude estabelece uma clara diferença entre um ladrão e um assaltante. O assaltante apresenta-se com uma arma e ataca. O ladrão entra às escondidas na residência de um semelhante para roubá-lo. Para a forma de pensar dos judeus, o ladrão é mais desprezível porque o seu modo de agir pretende enganar a Deus".

A fraude de Bernard Madoff, que até este momento soma US$ 64.800 bilhões e é a maior já feita por uma única pessoa, foi tão bem montada que explicá-la é quase um desafio metafísico.

Muitos preferem a alternativa mais mórbida da patologia: A manchete do New York Times escolheu descrevê-lo com uma invocação ao primeiro livro da série de Patricia Highsmith sobre o personagem Ripley, "O talentoso senhor Madoff".

Em todos os meios de comunicação, especialistas alertam para as características próprias dos psicopatas, o sorriso neutro com que o réu se apresentou perante as câmeras e a tranquilidade com que agradeceu ao juiz pela oportunidade de ser confrontado com seus crimes: a habilidade para manipular e enganar sem sentir remorsos, um narcisismo que faz com que os psicopatas pensem que tudo lhes é permitido.

Por último, a opção pela ambição também ganhou a opinião pública: o homem que na sua modesta origem no bairro Queens, de NY, onde pagava US$ 87 de aluguel pelo primeiro apartamento de dois cômodos no qual morava com a sua esposa Ruth, acabou proprietário de uma cobertura no exclusivo Upper East Side de Manhattan, de um iate que navegava de um lado para o outro pela Riviera Francesa, parte de dois jatinhos privados e uma mansão em Palm Beach, de Miami, em cujo Country Club (onde a taxa para associar-se custa US$ 350.000) conseguiu boa parte das suas vítimas.

Visto por qualquer ângulo, chega-se à conclusão de que Madoff se sentia Deus. Suas manias obsessivas que causavam pânicos aos empregados são lendárias, assim como a ascensão de uma juventude de estudante de Direito e instalador de sistemas de irrigação para jardins, até uma bem assentada maturidade como assessor financeiro da elite.

Gostava de dizer que não procurava clientes, recusava-os e lhe impunha um valor mínimo de investimento sem explicar como fazia para que, mesmo em um mercado flutuável, os lucros atingissem entre 8% e 12% ao ano. Madoff acreditava que, como um deus, controlava os destinos dos seus 5.000 clientes.

E era exatamente isso o que fazia. Ele criou uma imagem de riqueza babilônica e em uma bela manhã todos acordaram no inferno. Muitas organizações filantrópicas fecharam as suas portas. A Fundação Elie Wiesel para a Humanidade, cujos fundos de US$ 15 milhões eram administrado pela Bernard Madoff Investment Securities, só sobreviveu porque uma onda de solidariedade a salvou do estrago.

"Penso que nenhum outro inimigo dos judeus prejudicou tanto a coletividade judaica dos Estados Unidos quanto ele, o pior dos canalhas", disse Wiesel em alusão a que boa parte dos clientes de Madoff estava relacionada com as fundações de beneficência judaicas - pessoas como Carl Shapiro ou Steven Spielberg - e a elite da coletividade em Nova York e Miami.

O grande historiador Simon Schama se incomoda quando identificam Madoff como judeu, porque ninguém identifica Carlo Ponzi como católico, o fraudador italiano do século XX, cuja famosa pirâmide para multiplicar dinheiro vazio serviu de inspiração para Madoff. Em 1920, no caso de Ponzi, todas as suas vítimas pertenciam à colônia italiana mais devota de Boston, ele obteve a sua confiança cega e em poucos meses os deixou na miséria.

A isca usada por Ponzi era tão simples quando ele próprio, um imigrante que lavava pratos no Canadá, onde foi preso por falsificar uma assinatura em um cheque e depois escreveu uma carta à sua mãe na qual dizia que ficaria um tempo em Quebec porque tinha conseguido emprego como assessor do diretor da prisão. Na sua delirante imaginação, Ponzi acreditava que podia passar de pobre a milionário graças a uma ideia que o revelou como um gênio para si mesmo: acumular selos postais internacionais que custavam quase nada nas moedas europeias desvalorizadas do pós-guerra e vendê-los nos prósperos Estados Unidos.

As suas fotos na imprensa da época mostram uma imagem de respeitabilidade: terno com colete, chapéu de feltro e bengala de punho dourado. Quando o volume de dólares que lhe confiaram superou amplamente o valor dos selos postais correntes, soube-se que Ponzi tinha começado a pagar aos velhos investidores com o dinheiro dos novos. O esquema de pirâmide acabava de nascer.

Diferente de Ponzi, que acreditou até a morte que o seu esquema era um negócio quase perfeito, tendo fracassado apenas por uma falha menor, Madoff sempre soube que o seu fundo de investimento era um total engano, mas estava convencido de que, quanto mais dobrava a aposta, mais seguros se sentiriam os investidores. Estava criando, como disse uma vez aos seus clientes de Miami, "uma teia de aranha melhor que a de Deus"

Quando Ronald Reagan chegou à presidência em 1981, Madoff tinha 20 anos e construía a sua reputação em Wall Street, bajulando as autoridades que regulavam o mundo financeiro em Washington. Então, abandonou a carreira que os banqueiros respeitavam e deu início ao seu plano de fraudes. Deixou de comprar e vender valores e começou a ganhar com a diferença e, inspirado em Pozi, cumpriu as suas promessas de alto rendimento anual pagando aos antigos investidores com os fundos dos novos. A sua estrutura cresceu em uma década e a bolsa eletrônica, Nasdaq, o recebeu orgulhosamente como diretor. Até então, Madoff era o único que dormia sabendo que a qualquer momento a pirâmide iria ruir. Só não sabia se estaria vivo quando isso acontecesse. Isso mudou em algum momento do ano 2000.

O autor do iminente primeiro livro sobre Madoff, Harry Markopolos, trabalhava então como "broker" (corretor) e seus chefes o recomendaram imitar o gênio que atraia os melhores clientes. Markopolos estudou a contabilidade pública daquele vencedor e descobriu duas coisas: que no índice internacional do Standard & Poor não constava a quantia em valores que Madoff dizia comercializar (assim como não havia tantos selos postais nos anos de Ponzi) e que, mesmo que isso fosse verdade, jamais se poderia alcançar a porcentagem de rendimentos declarada por Madoff.

A partir dessa descoberta, Markopolos viveu para denunciar a fraude. Em 2001 colaborou com o jornalista financeiro Michel Ocrant (hoje co-autor do seu livro) em um relatório para a publicação destinada a investidores, que não cativou leitor algum. Quatro anos mais tarde enviou uma denúncia de 19 páginas, com modelos matemáticos que comprovavam a fraude, para a Securities and Exchange Commision (SEC), a agência que regula o mercado de valores. A denúncia de Markopolos foi jogada no lixo.

Não fossem os efeitos da falta de regulamentação que lançaram luz sobre a crise financeira, talvez Markopolos tivesse continuado lutando em vão, enquanto Madoff encomendava ternos novos na Kilgour, a exclusiva alfaiataria de Savile Row, em Londres, e deixava US$ 200 na barbearia Everglades de Palm Beach por um corte de cabelo, barba e serviços de manicure e pedicure.

Em pânico com a crise, alguns clientes quiseram sacar US$ 7 bilhões, a pirâmide veio abaixo em um suspiro. Provavelmente para proteger a sua família - os seus filhos Mark e Andrew que o entregaram; principalmente a sua mulher, Ruth; e o seu irmão, Peter - Madoff declarou-se culpado em 11 processos que o levaram a uma sentença de 150 anos de reclusão. Ele terá de acostumar-se a não fumar um Davidoff quando tiver vontade. Mesmo depois de a justiça ter apreendido seus bens, assinou cheques milionários e distribuiu entre os amigos os caríssimos relógios que colecionava.

Três meses após começar a serem revelados os detalhes da fraude, a personalidade de Madoff continua um mistério. Na festa de fim de ano da sua empresa, desejou felicidades e prosperidade a todos os funcionários, mesmo sabendo que iria entregar-se e que os bens tinham sido apreendidos.

Este deboche trágico só podemos interpretar como nos diz o rabino Gafner: um desafio a Deus. Acreditando ser insuperável e intocável, Madoff teceu uma teia de aranha com a qual pôde cercar a humanidade no inferno e sair de lá sem se queimar.

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